Projeto mostra opção nacional para levar banda larga de alta capacidade e baixo custo a áreas rurais e remotas
Desenvolvida por NIC.br, UFC e Inatel, a tecnologia aproveita canais ociosos do espectro da TV digital, e foi validada em testes de campo; protótipos estão praticamente prontos para transferência ao mercado
São Paulo, 6 de outubro de 2026 - Uma solução nacional pode abrir caminho para ampliar o acesso com banda larga em áreas rurais e remotas do país, onde a implantação de redes enfrenta desafios técnicos e econômicos. Baseada no aproveitamento de canais ociosos do espectro da televisão digital, a tecnologia foi desenvolvida no âmbito do Projeto TV White Space (TVWS), conduzido pelo Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (NIC.br) em parceria com a Universidade Federal do Ceará (UFC) e o Instituto Nacional de Telecomunicações - Inatel. Após testes de campo em Quixadá (CE), o projeto entrou na quinta fase, cujo foco é desenvolver uma plataforma TVWS mais eficiente, barata e pronta para uso.
Assim, a iniciativa tem como proposta criar redes terrestres de longo alcance utilizando os chamados “espaços em branco” (white spaces), que são canais de frequências da faixa de TV não usadas pelos serviços de radiodifusão: prover conectividade de alta capacidade a baixo custo, em regiões onde a expansão do 4G e do 5G é limitada por barreiras como necessidade de muitas estações para cobrir grandes extensões territoriais, uma baixa densidade populacional, e elevados custos de implantação e operação, o que reduz o retorno dos investimentos.
“A tecnologia TVWS é empregada em vários países, mas o projeto que conduzimos concebeu, desenvolveu e validou em campo uma solução tecnológica nacional própria e pioneira, adaptada às necessidades do cenário brasileiro. Essa infraestrutura pode se tornar uma grande aliada da universalização da conectividade à Internet, ajudando a promover a inclusão digital e o acesso de comunidades rurais, ribeirinhas e quilombolas aos serviços públicos essenciais. Ela tem ainda capacidade de atender a setores estratégicos como o agronegócio, a indústria e a mineração, e pode representar novas oportunidades de modelo de negócio para provedores regionais de Internet”, explica Milton Kaoru Kashiwakura, Diretor de Projetos Especiais e de Desenvolvimento do NIC.br e um dos coordenadores da iniciativa.
A proposta do TVWS não é competir com o satélite, mas complementar sua atuação em regiões de difícil acesso. O satélite pode levar a conexão a locais remotos, enquanto a rede terrestre TVWS a distribuiria localmente, com menor custo e latência, e suporte à mobilidade. A combinação é especialmente relevante para dispositivos de Internet das Coisas (IoT) e de baixo custo, que não possuem capacidade computacional ou energética para conexão direta com a rede satelital.
Funcionamento
O princípio de funcionamento da tecnologia envolve uma arquitetura composta por base de dados georreferenciada, ERB TVWS (Estação Rádio Base) conectada à Internet, e usuários com os dispositivos finais móveis. A operação da rede é regida pelo seguinte procedimento: ao iniciar, a ERB TVWS acessa o banco de dados georreferenciado para solicitar um canal ou um conjunto de canais que estejam ociosos na banda de TV de sua posição geográfica. Ao receber a resposta do banco de dados, a ERB TVWS realiza o sensoriamento espectral dos canais apresentados, visando a garantir que estes estejam efetivamente desocupados e, caso todos canais estejam livres, a rede TVWS entra em operação nas frequências informadas pela base da dados. Por outro lado, caso um sinal de TV seja encontrado em um ou mais canais, a ERB TVWS reporta a inconsistência para o banco de dados, e solicita novas frequências. Quando um terminal de usuário é inicializado, o mesmo faz uma varredura dos canais de TV procurando pelo sinal da ERB TVWS. Ao encontrar um, o terminal inicializa o procedimento de conexão e autenticação para ter acesso à rede. A ERB TVWS também pode solicitar que os terminais móveis façam o sensoriamento espectral dos canais em utilização pela rede TVWS para prover ainda maior proteção para as emissoras de TV.
Dessa forma, os canais disponíveis são selecionados de maneira segura para o Sistema de Radiodifusão existente, e estabelecem-se os serviços com os usuários, estando eles em residências, propriedades rurais, escolas, unidades de saúde, aplicações de IoT, entre outros.
“Um dos pilares técnicos da iniciativa é o uso eficiente e seguro de canais ociosos do espectro de televisão. No Brasil, temos 47 canais de TV, e cada um deles utiliza uma faixa de frequência. Em regiões remotas, onde há carência de Internet, existe uma grande quantidade de canais não ocupados. É importante ressaltar que a tecnologia TVWS opera com total segurança, para garantir que não haja interferência no sinal das emissoras licenciadas”, afirma Gilberto Zorello, coordenador do projeto no NIC.br, acrescentando que a solução de telecomunicação desenvolvida é capaz de oferecer um serviço estável e de fácil implementação.
“Nossa iniciativa tem o objetivo social de incluir na era da informação pessoas que vivem em áreas hoje sem cobertura. Há interesse dos provedores regionais em levar Internet ao campo, mas ainda faltam tecnologias que permitam atender essas comunidades com um custo viável para quem oferece o serviço, e um preço acessível para quem lá vive. É a essa necessidade que buscamos responder com o TVWS: aproveitar uma conexão já disponível em um ponto, e ampliar seu alcance, levando conectividade a uma área maior, aproximando da vida digital quem hoje está fora dela”, afirma o coordenador de pesquisa do Centro de Referência em Radiocomunicações do Inatel, professor Luciano Leonel Mendes.
O desafio não se restringe ao cenário brasileiro. “É muito difícil que uma única tecnologia consiga atender a todas as necessidades. A diversidade de casos de uso encontrada no Brasil também está presente em várias partes do mundo”, completa Mendes.
Já Rodrigo Porto, Coordenador do Grupo de Pesquisa em Telecomunicações sem Fio (GTEL-UFC), enfatiza que a infraestrutura de sensoriamento gera inteligência que pode subsidiar diretamente a atuação da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel). “Um dos produtos do projeto é a base de dados de canais de TV ociosos Fiquespectro. Além de orientar a própria operação em tempo real do sistema TVWS, essa base pode ser alimentada por dados de uso efetivo dos canais [usuários primários e secundários] e de sensoriamento de sinal de rádio, gerando inteligência que pode subsidiar diretamente a melhoria de modelos de propagação e a atuação da agência reguladora, oferecendo uma ampla visibilidade do uso real do espectro, detecção de interferências e suporte ao planejamento regulatório do setor.”
Porto acrescenta que, por outro lado, a tecnologia usada no desenvolvimento da base de dados permite traçar o histórico dos usuários do espectro. “Assim, no caso da detecção de situações anômalas, a agência reguladora tem ao seu dispor mecanismos de auditabilidade, dando subsídio a eventuais ações judicais”, explica.
Fases e resultados
O desenvolvimento do Projeto TV White Space avançou em quatro fases, todas já concluídas. A primeira foi dedicada à análise da viabilidade técnica do uso da tecnologia no Brasil, incluindo estudos sobre o espectro e a propagação dos sinais. Na segunda foram realizados testes de campo complementares para atender às demandas da Anatel. A terceira etapa envolveu a concepção da rede protótipo, sua arquitetura e a construção da base de dados georreferenciada. A quarta aprimorou a implementação da rede e levou os testes para um cenário mais significativo, com múltiplos usuários e aplicações.
Os testes de campo da quarta fase ocorreram em Quixadá (CE), em conformidade com a Resolução Anatel nº 747, de 5 de outubro de 2021. Os enlaces foram estabelecidos entre a ERB TVWS instalada na UFC (Campus de Quixadá) e pontos de usuários remotos, incluindo a Escola Aziz Okka Baquit, a Ecopousada Mosteiro da Santa Cruz e a localidade de Riacho Verde, cobrindo distâncias de vários quilômetros em terreno rural. Os resultados comprovaram a robustez e a viabilidade técnica da solução TVWS, traduzindo-se em vantagens práticas para o campo.
Um dos destaques registrados durante os testes foi a taxa máxima de 115 Mbps em download, demonstrando a capacidade da tecnologia de entregar Internet de alta velocidade. Outro resultado que chamou a atenção foi a manutenção de conexões de radiofrequência estáveis a 11,6 km de distância, comprovando o fôlego da rede para cobrir áreas geográficas amplas de forma eficiente, superando a barreira da baixa densidade de infraestrutura.
"O projeto demonstra que a conectividade em áreas rurais não precisa ficar presa a modelos tradicionais de redes e de uso do espectro. Para adotar essa nova solução em larga escala, é essencial tornar viáveis formas mais flexíveis de utilização de frequências em redes terrestres de longo alcance para regiões remotas", destaca Zorello.
"Ao buscar uma alternativa para ampliar a conectividade em regiões que não estão cobertas pelas redes convencionais, a iniciativa se insere em uma agenda mais ampla de desenvolvimento da Internet no país, o que está totalmente em linha com o propósito do NIC.br", acrescenta Kashiwakura.
Nova etapa
A iniciativa está agora em uma nova etapa, visando a aplicar a solução tecnológica em ambiente real. O trabalho está concentrado em cinco frentes: aprimoramento do rádio TVWS para operar em modo TDD (Time Division Duplex), permitindo maior flexibilidade e melhor aproveitamento do espectro; otimização dos algoritmos, com redução de necessidades de processamento, memória e energia; adaptação dos softwares da tecnologia TVWS para uma plataforma de hardware própria e de menor custo; testes com tecnologias TVWS do mercado; e melhorias na ferramenta “Fiquespectro” (https://fiquespectro.com.br/), com uma interface mais intuitiva, visualizações avançadas e alertas em tempo real.
O projeto é também apoiado pela Foreign, Commonwealth & Development Office (FCDO) do Reino Unido e agrega competências em pesquisa acadêmica aplicada à Internet, desenvolvimento de software para telecomunicações e engenharia de telecomunicações de ponta.
Assista ao vídeo sobre o projeto: https://youtu.be/77rHmfA7vkc
Assista ao teaser sobre o projeto: https://youtu.be/S0QWzA3BjJs
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